
E hoje eu fui para uma entrevista, que serve para explicar como funciona o curso, qual a expectativa deles e principalmente a minha. E todos sabem muito bem, só temos uma chance de causar uma boa impressão. E com que roupa eu vou ???? Eita indecisão! Não posso ir muito formal e nem muito esculhambada, vou optar por uma calça jeans, um malha delicada, brincos pequenos e meu scarpin favorito.
Preparei um currículo `as pressas um dia antes, todo traduzido em holandês, porque não lembrava mais a data que cursei a faculdade, quando fiz alguns cursos, estas coisas que quase ninguém guarda na memória.
Chego no prédio e aguardo ser chamada, o Henk comigo. Um homem apresenta-se e nos leva para uma sala, eu estava nervosa, parecia uma entrevista de emprego. E começam as perguntas: -Quanto tempo estudou? O que você cursou? Fala outros idiomas? Quanto tempo está na Holanda? Qual sua profissão? Eu tento respondê-las, fico feliz em entender boa parte do que ele fala, mas o Henk intermedia a conversa. É um interrogatório?!!! E quando estou me perdendo no assunto peço para que repita devagar e assim vai indo. O entrevistador acha que eu já tenho um nível em holandês, eu !? Ao mesmo tempo me desanima dizendo que talvez seja difícil começar estudar este ano, porque as classes estão cheias e a maioria das pessoas começam do zero. De outra maneira tenta me motivar dizendo que Turismo é uma área ampla, posso conseguir alguma coisa. Melhor resumir a conversa, vou estudar durante dois anos, tudo pago pela Holanda, tenho que aprender o idioma e outros aspectos relacionados ao país. Ufa! Termina a entrevista.
E agora em outra sala, apresentações e de novo tenho que contar um pouco da minha vida. Desta vez muito melhor, a professora fala devagar, claramente e algumas vezes com gestos exagerados. Na primeira pergunta ela quer saber o que eu acho da Holanda, difícil! Disse que gostava daqui, achava o país muito organizado e que tenho medo do inverno. Ela faz uma brincadeira, dizendo que no inverno vou precisar de bastante roupas e que não preciso ficar com medo, as casas são quentes! E a conversa vai fluindo, procuro entender, pensar e tentar responder em holandês! Tem horas que conjugo os verbos errados, faltam algumas palavras, mas continuo adiante. Parece que tivemos empatia, se o objetivo dela era me animar, conseguiu!
Falou que eu tinha um bom currículo e que poderia conseguir estágios ou mesmo empregos temporariamente quando eu falar bem melhor, é claro! E ainda perguntou se eu só me interessava por bancos, imagine! Eu quero tentar coisas diferentes, talvez uma nova profissão, sei lá. Ela deixa claro que eu preciso estudar muito e que os resultados vão depender exclusivamente de mim! E pergunto se preciso dos diplomas e certificados agora, porque estão todos no Brasil, por enquanto não! Ah! Sai motivada e feliz! Diz que vai me colocar em um novo grupo um pouco adiantado, que as aulas são um método diferente, bem interativas e começo na segunda-feira a estudar todos os dias. Acabou a mordomia!
É muito bom escutar palavras motivadoras, positivas, mesmo que não seja a realidade daqui pra frente, porque os pensamentos ruins aparecem sozinhos e a insegurança ainda ronda a cabeça. No caminho eu comento sobre a entrevista com o Henk, que me diz coisas que não percebi, como eu podia ver se estava tão aflita. Ele reparou que a professora arregalou os olhos quando eu conjuguei os verbos na frase, quando fiz algumas perguntas e que me achou esforçada. Parece que aproveitei a chance de uma boa impressão, o primeiro passo já foi dado, torçam por mim!!!

Depois disto a vida na cozinha ficou mais fácil, fiz massa de panquecas, errei na quantidade só deram 04, mas enrolei e enchi de carne moída, aqui as panquecas vem abertas com pouco recheio em cima. Estes dias fiz bolinho de chuva com fermento de pão, era o único que eu tinha em casa, deu certo. O dia da couve flor foi horrível, só de lembrar me dá ânsia, como errei num prato tão simples? Cozinhar um pouco a couve flor e depois preparar um creme, jogar em cima e gratinar (palavra chique, para dizer que vai por no forno) pronto! Ficou um nojo! Não deu para comer, joguei fora!!
O Henk acha que eu cozinho muito bem, coitado, meu cobaia preferido!! O que não é o incentivo do marido!!! A primeira vez que fui fazer arroz, parecia um ritual chinês... Lava bem o arroz, tempera com alho, deixa fritar um pouco, coloca água quente, um copo de arroz, dois de água, não mexe muito, deixa ele cozinhar abafado com a tampa... Minha nossa, eu tava toda retesada!!! E aí vi o Henk fazendo o arroz outro dia, parecia programa de humor, pegou uma panela bem grande encheu de água, pensei que ia fazer uma sopa, pegou o arroz jogou na panela, sem lavar, sem tempero, sem nada e deixou lá cozinhando, sem tampa, sem vapor, quando achou que o arroz tava cozido pegou a panela e jogou a água fora. Urgh! Eu não vou comer esta lavagem! Levando em conta que ele quase nunca come arroz, tava bom, talvez esta seja minha prova de amor, mais uma! Depois disto relaxei e tento umas receitinhas mais elaboradas. E se não fosse o Henk eu não comeria verdura nunca, mais aqui é a base da comida!
Mas não consigo fazer nada de cabeça, gosto de entrar no site http://tudogostoso.uol.com.br , porque posso procurar por ingrediente e pelas receitas. E também não poderia esquecer do meu amigo de Portugal, quase um anjo, que me salva de umas enrascadas na cozinha e temos segredos de liquidificador. Obrigada, amigo!!!
Agora meu maior desafio é um bolo de chocolate... Comprei uma forma, achei cara, mas era a única de ferro, as outras eram de silicone, o Henk falou que podem ir ao forno, mas eu não acredito! Eu tô com tanta vontade... Que o Henk estes dias ganhou um pedaço de bolo chocolate lá no trabalho, guardou e trouxe pra mim, que coisa linda!!! Mas agora já tenho todos os ingredientes e espero o melhor momento, minha vida de cozinheira tá apenas começando!!

Logo quando cheguei na Holanda eu sabia que o almoço não existia, mas resolvi cozinhar para mim, durou apenas 03 dias, acabei desistindo e comendo um pãozinho no meio da tarde. Acordei um dia com vontade (não confunda com desejo) de tomar suco de milho, uma saudade da casa da pamonha. Aqui eles usam o milho para alimentar o gado e não misturam com açúcar em hipótese nenhuma, que pena. E resolvi pesquisar na internet uma receita de suco de milho, achei, comecei a fazer e deu certo, é claro que nem se compara com a original, mas deu para tomar. E daí começou meu interesse para ver outras receitas, já que me tornei a "rainha da carne moída e da batata" aqui em casa, porque fiz com molho, assada, frita, empanada e de tudo quanto é jeito... E pensar que eu nunca cozinhei na minha vida, nem fritei um ovo, a única sopa que eu fiz, era bem simples, colocava água quente dentro do copo e pronto, uma delícia para quem está com fome ou preguiça! E quando tinha vontade de comer uma guloseima ou um doce, pegava o carro e ía comprar, mais fácil ainda!!!
Eis que agora surge uma nova pessoa com poderes na cozinha, tchammm, tchammm, tchammm, EU! Sei que meus amigos vão desconfiar um pouco, 35 anos sem por a mão na massa e vai começar logo agora? Acreditem, é verdade!! Por enquanto... O Henk é o único provedor da casa, então eu faço a comida, além das outras tarefas domésticas, me dou muito bem com o aspirador de pó, somos amigos de infância praticamente!
Selecionei algumas receitas fáceis na internet, bem explicadinhas, com ingredientes possíveis na Holanda. Deixa eu tentar lembrar a minha primeira receitinha... Batatas gratinadas, bem fácil, mas eu quis incrementar, coloquei um pouco de pimenta, ficou boa, mas picante e tome água!!! Depois fiz lasanha de beringela, almôndega `a parmegiana, estrogonofe, arroz com feijão e assim vai indo, sei que para quem sabe cozinhar, isto é moleza, mas eu comecei do zero! E nem tudo sai como previsto, a primeira vez que fiz um omelete virou ovos mexidos, mas o segundo ficou ótimo, bati as claras separadas e depois adicionei as gemas.
O mais engraçado até hoje foi o peixe, na receita era um kilo de peixe para um vidrinho de leite de coco, eu fiz 02 filés com uma lata de 400ml, na verdade eu só mudei a receita, porque nós comemos leite de coco com filés de peixe. E o cheiro empesteou a casa toda, deu para engolir e ainda bem que não tivemos diarréia!!
Teve um dia frio com chuva eu tava tão entediada que resolvi pegar uma receita bem trabalhosa. E achei nhoque com batatas, estava escrito que ia sujar toda a cozinha, pensei: -É esta mesmo! Começo a preparar às 15:00 horas, porque se der errado tenho tempo de fazer outra coisa. E vai batata, farinha, ovos, amassa, gruda tudo na mão, enrola, corta as bolinhas e agora preciso dar um choque térmico no nhoque, o quê? Como assim? Tenho que colocar na água quente e depois colocar na água fria, já viu isto?! Mas eu fiz como manda a receita e deu certo!!! No final tinha farinha em todo canto. Eu e o Henk lambemos os beiços de tão bom!!!

Ontem eu andei tanto de bicicleta que dói tudo, aliás ganhei uma bicicleta de esportes do Henk, aquela com o pneu bem fininho e com marchas. Sempre pensei como uma pessoa poderia mover-se numa coisinha tão frágil e leve. Só que agora preciso praticar mais, acho dificil me equilibrar, trocar marchas, dar sinalização, brecar, um monte de coisas e os holandeses fazem isto com o pé nas costas. O pior é que fico numa posição muito inclinada e minha coordenação é razoável, depois disto talvez melhore.
E enquanto testo minha paciência esperando ser chamada para as aulas de holandês, tento voltar a rotina. Começaram minhas aulas de ginástica, praticamente lotada de mulheres, hoje estava bem animada. Agora eu vou até lá correndo ao invés de pegar a bicicleta, a idéia é queimar calorias!

E acho que meu tempo de ficar em casa está esgotando-se, eu sempre trabalhei desde os 13 anos, graças a Deus! E nunca fiquei tanto tempo sem fazer nada, tirando a fase que rompi os ligamentos do pé e aí estava presa na cama por 04 meses, o que era muito pior. Mas acho a Holanda muito organizada nos processos burocráticos para estrangeiros, onde a maioria vai passar ou já passou por isto. Participo de uma comunidade no Orkut chamada "Brasileiros na Holanda", muito boa e informativa, fico remexendo para ler os tópicos antigos, vejo experiências de outras pessoas, `as vezes alguns desabafos e sei que a adaptação é muito difícil pra maioria dos brasileiros, eu não sou a única.
Agora sou sócia da locadora, muito perto de casa, abre todos os dias inclusive aos domingos, nos finais de semana pego uns filminhos. Assisti alguns bem legais, "O Vôo 93", um drama sobre o atentado de 11 de Setembro, onde um avião é sequestrado e os passageiros tentam impedir que os terroristas atinjam seu objetivo, o outro uma comédia divertida "As férias da minha vida", a protagonista acha que vai morrer e dá início as férias de um conto de fadas, dei boas risadas.
E sinto que meu holandês tá fluindo melhor, um dias destes fui na cidade trocar uma blusa que comprei, imagina a complicação, mas geralmente eu falo que estou aprendendo o idioma e acho que as pessoas ficam mais simpáticas, vendo meu esforço para comunicar me na língua deles. E assim vou me arriscando um pouco mais no dia a dia. Estes dias pensei em sentar na praça da cidade e segurar uma plaquinha: -Sou brasileira e preciso praticar o holandês, por favor conversem comigo! Mas desisti porque seria assustador e ia parecer uma ordem, holandeses odeiam! O jeito é treinar em casa, repetir milhões, zilhões de vezes as palavras até que elas possam sair sozinhas.
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